A festa de Natal da empresa que quase me custou o emprego nos RH
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Corporativo

A festa de Natal da empresa que quase me custou o emprego nos RH

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Cláudia Silva
11 de junho de 2026

Quando o 'Bar Aberto' e um catering mal calculado transformam um evento corporativo de celebração numa crise interna de reputação para os Recursos Humanos.

No meu segundo ano como Diretora de Recursos Humanos de uma empresa tecnológica em Lisboa, cometi o pecado original da gestão de eventos corporativos: foquei-me mais em parecer 'cool' do que em garantir a segurança comportamental da minha equipa. A administração pediu-me uma festa de Natal memorável, para celebrar um ano de vendas recorde. A minha ideia foi alugar um espaço noturno bastante conhecido, contratar um DJ da moda e assegurar quatro horas seguidas de bar aberto, sem qualquer restrição, para 180 colaboradores. O que parecia a receita para a festa do ano, transformou-se numa dor de cabeça diplomática que durou semanas a ser resolvida nos corredores.

O problema nunca é o álcool em si; é a logística que suporta o consumo. Na ânsia de canalizar o orçamento para a bebida premium e para o entretenimento, negligenciei gravemente a matriz da alimentação. Contratei um serviço de cocktail volante ligeiro, com poucas unidades por pessoa, achando que as pessoas não queriam perder muito tempo a jantar e preferiam dançar.

A fórmula do desastre corporativo:

  • Falta de Carbo-hidratos (A esponja invisível): Às 21h00 a comida esgotou. As mesas de apoio ficaram limpas. A partir dessa hora, os colaboradores continuaram a pedir gin, vodka e cerveja em estômagos essencialmente vazios. A velocidade de embriaguez da sala acelerou de forma assustadora em menos de 60 minutos, alterando por completo a postura profissional que devia ser mantida, mesmo em contexto festivo.
  • Ausência de Pontos de Fuga: A música estava no volume de discoteca logo desde o início. Não criei zonas de 'lounge' ou espaços acústicos de descanso. As pessoas que queriam apenas conversar sentiam-se obrigadas a ficar perto dos bares a gritar umas com as outras, o que promovia ainda mais o consumo excessivo sem qualquer espaço para descompressão.
  • A Hierarquia Esquecida: Num ambiente descontrolado, as barreiras caíram para o lado errado. Tive diretores de departamento a lidar com situações profundamente desconfortáveis com subordinados e intervenções que, na segunda-feira seguinte, geraram queixas formais e reuniões à porta fechada. O evento, que devia motivar, quebrou o respeito mútuo.

Sobrevivi a este evento e não fui despedida porque a empresa entendeu a lição. Hoje, os meus eventos corporativos têm uma regra de ouro inquebrável: o investimento em comida pesada ('late night snacks', como estações de bifanas ou hambúrgueres a meio da noite) tem de ser superior ao investimento em bar. A tecnologia permite gerir alergias e preferências de forma imaculada; não há desculpa para deixar uma equipa passar fome. E bar aberto ilimitado? Nunca mais. Agora usamos sistemas de senhas digitais para controlar os consumos abusivos. Os RH não são baby-sitters, mas temos a obrigação de projetar espaços seguros.

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